sexta-feira, 30 de setembro de 2011

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"Entre a esteira e o estrado, encontrara, com efeito, um velho pedaço de jornal, amarelecido e transparente, quase colado ao tecido. Relatava um acontecimento, cujo início faltava, mas que devia ter sucedido na Tcheco-Eslováquia. Um homem partira de uma aldeia tcheca pra fazer fortuna. Aof im de 25 anos, rico, regressara, casado e com um filho. A mãe dele e a irmã tinham um hotel na aldeia. Para fazer-lhes uma surpresa, deixara a mulher e o filho em outro estabelecimento, e fora visitar a mãe, que não o reconheceu quando ele entrou. Por brincadeira, tivera a idéia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o seu dinheiro. De noite, a mãe e a irmã assassinaram-no e atiraram o corpo no rio. Na manhã seguinte, a mulher viera ao hotel, e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe se enforcara. A irmã atirara-se no poço. Devo ter lido essa história milhares de vezes. Por um lado era inverossímil. Por outro lado, era natural. De qualquer forma, achava que o viajante o nerecera até certo ponto, e que nunca se deve brincar assim."

Albert Camus "O Estrangeiro"

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